quinta-feira, 13 de março de 2014

Neutralidade da rede - Parte 1: Os usuários e os provedores de Internet

Já que não achei mais correntes estapafúrdias para comentar (mandem as que vocês acharem! :P), resolvi comentar um assunto que está sendo bastante debatido: o marco civil da internet. Especificamente, eu vou tratar da neutralidade da rede e por que ela é essencial para que a inovação na Internet continue acontecendo.

Por ser um assunto bastante extenso e merece ser tratado com cuidado, eu dividi o post em dois. Na primeira parte (esse post), eu discuto as relações de dinheiro entre os usuários, os provedores de banda larga e os Backbones, os grandes provedores de internet.

Na segunda parte, eu trato da neutralidade dentro desse contexto.

A relação entre o provedor e o usuário.

Funciona assim: você contrata um provedor de banda larga PBL1 e paga a ele um valor para ter direito a tantos megabits por segundo de banda. Todo vez que você quer acessar um site ou usar um aplicativo que acesse a internet, o seu computador se conecta na rede do PBL1 e envia e recebe os dados necessários. Simplificando, temos a figura a seguir:



Nesse exemplo, temos 3 casas conectadas a PBL1, cada uma com uma velocidade diferente. PBL1 pode cobrar valores diferentes pelas conexões, pois bandas maiores presumem volume de tráfego maiores.

Fazendo uma analogia, imagine uma rodovia com 5 faixas distintas. 2 delas são oferecidas sem custo aos motoristas e possuem velocidade máxima de 60km/h. As outras 3 são oferecidas mediante pedágio, mas possuem velocidade máxima de 110km/h.

A relação entre os provedores

Na imagem anterior, eu coloquei uma seta com o tamanho da banda de PBL1 conectada na internet. Vamos expandir isso como na figura seguinte:



Nessa imagem, temos 3 provedores (PBL1, PBL2, PBL3), três Backbones (BB1, BB2, BB3) e uma empresa (E1).  Backbones são grandes provedores de dados que tipicamente fazem as interconexões entre os provedores. Os seus canais de dados são geralmente bem maiores, mais confiáves e, portanto, são mais caros. Não é incomum empresas de médio/grande porte pagarem por um canal a um Backbone exatamente por oferecerem um canal de melhor qualidade.

Voltando a analogia da rodovia, imagine que existam duas rodovias entre as cidades de Belo Horizonte e Itaúna. As duas possuem velocidade máxima de 110km/h, mas uma delas cobra pedágio porque faz manutenção com maior frequência. A rodovia mais bem cuidada permite que os motoristas trafeguem a maior parte do tempo na velocidade máxima.

Aqui, temos um cenário análago ao do usuário com o provedor: os provedores podem escolher se conectar a Backbones ou a outros provedores e pagar proporcionalmente ao tamanho e a confiabilidade do seu canal.

Por que faz sentido vender mais banda do que disponível

Vamos ver novamente a figura das casas conectadas ao provedor de banda larga, mas agora com um pequena diferença:


Notem que agora PBL1 possui um canal de 24 Mbps com a internet. No entanto, a soma das bandas contratadas pelas casas é de 32 Mbps. Isso quer dizer que se as três casas estiverem acessando a internet ao mesmo tempo, e assumirmos que o canal da internet é dividido igualmente entre as casas, apenas a casa com 7 Mbps atingirá a sua velocidade máxima. As outras duas atingirão no máximo 8.5 Mbps.

Voltando mais uma vez para a rodovia. Para que todos os veículos trafegando na rodovia consigam manter a velocidade máxima, o número de veículos não pode passar de um determinado limite. Acima dele, é perigoso manter a velocidade máxima e portanto os motoristas tendem a diminuir a velocidade para manter a segurança.

Na internet, ocorre a mesma coisa. Quando se quer transferir um arquivo qualquer (imagem, text, video, etc), esse arquivo é primeiro dividido em vários pedaços menores chamados pacotes. A quantidade de pacotes presentes ao mesmo tempo no canal é proporcional ao tamanho desse canal. Se tem mais pacotes que canal disponível, eles vão esperar ter espaço no canal para serem transmitidos e portanto a velocidade da transmissão vai ser menor.

Por que os provedores fazem isso? Pelo mesmo motivo das rodovias:
  1. É caro adquirir/construir/manter um canal maior;
  2. Na maior parte do tempo, o canal não é 100% utilizado.


Resumo antes de falarmos de neutralidade

  • Usuários pagam aos provedores de banda larga para terem acesso a internet.
  • O valor pago é proporcional ao tamanho da banda disponível.
  • Os provedores, por sua vez, pagam para se conectar aos outros provedores e aos Backbones.
  • A lógica de pagamento é a mesma, porém confiabilidade do canal é um fator tão importante quanto a banda disponível.
  • Os provedores tipicamente vendem mais banda que possuem porque:
    • É caro adquirir/construir/manter um canal maior
    • Na maior parte do tempo, o canal é 100% utilizado
Agora, vá para a segunda parte do post.